Filme com protagonista cego é produzido em Vila Velha
- ciapoeticas
- 12 de dez. de 2025
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“Pai Fotógrafo” traz o radialista e fotógrafo cego Manoel Peçanha no papel central
No Brasil não temos casos de filmes de ficção com atores protagonistas cegos. “Pai Fotógrafo", produzido em Vila Velha, é o primeiro.
O filme traz a temática do amor filial. Chico Preto, um fotógrafo cego bem sucedido, vai ao encontro do pai depois de trinta anos de ausência e, com uma câmera na mão, filma momentos do reencontro.
Cego de nascença, o radialista Manoel Peçanha interpreta o personagem central. E para viver o pai foi realizado um processo seletivo, com oficinas em Centros de Convivência do Idoso da Grande Vitória. Foi assim que a diretora Rejane Arruda conheceu o compositor Milton Farias, escolhido para o papel.
Realizado pela SOCA Brasil, o filme foi exibido no mês de dezembro em instituições e escolas como contrapartida social para o Edital de Produção de Curta-metragens, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura (SEMCULT) com recursos da Lei Paulo Gustavo.

Inovação na Linguagem
Além de radialista e apresentador do programa “Ponto a Ponto” na Rádio Educativa, Manoel Peçanha é cantor na Orquestra Brasileira de Cantores Cegos e participa do coletivo inédito de doze fotógrafos cegos formado pela SOCA Brasil através do projeto “Escola de Fotógrafos Cegos”.
Vivências do ator foram aproveitadas para o roteiro, como o próprio fato de ser um fotógrafo-cego. Segundo Rejane Arruda, que também roteirizou Pai Fotógrafo, o fato de grande parte das imagens ser produzida pela câmera do protagonista, trouxe uma identidade para o filme.
“A imprecisão do enquadramento chama a atenção para um certo limite onde a imagem é interrompida. Nesta borda, objetos somem e aparecem. A imagem oscila, criando uma sensação de que o mundo chacoalha ou desmorona”, explica ela.
Rejane é atriz com trajetória no Cinema Autoral e diretora dedicada a projetos de impacto social, como “Cegos, Surdos e Cadeirantes na Cena Diversa do Teatro Capixaba”, “Orquestra Brasileira de Cantores Cegos” e “Escola de Fotógrafos Cegos”, entre outros.
A carreira como cineasta teve início com “A Mulher do Treze”, curta metragem lançado na Mostra Internacional de Cinema Kinoforum em 2018. No filme, uma idosa não percebe que o esposo faleceu e continua cozinhando para ele.
Segue filmes como “Abrigo” (2021), sobre uma jovem órfã que completa 18 anos; “Nada Me Falta” (2025), documentário híbrido com mulheres cegas e surdas; e Cloza, co-dirigido com Sabrina Feu, sobre uma mulher preta e periférica que se torna exemplo de resistência para a família, com previsão de lançamento em 2026.
“Eu escutava Manoel falar da infância e sobre o seu pai, que ele não via a muito tempo. A perspectiva de um reencontro entre os dois começou a povoar o meu imaginário. A ideia da máquina fotográfica como os seus olhos, que ele trazia em nossas conversas, foi inspiradora para a investigação de uma estética fílmica”, diz Rejane.
Inclusão nas Telas
A premissa de uma pessoa com deficiência visual atuando como protagonista de filmes ou séries de ficção que trazem esta temática é recente. O maior número das obras com personagens cegos tem videntes (pessoas que enxergam) no papel do protagonista.
A lista é extensa: Al Pacino em “Perfume de Mulher”; Jamie Fox em “Ray”; Patty Duke em "O Milagre de Anne Sullivan”; Alec Baldwin no filme "Um Novo Olhar"; Bryce Dallas Howard em "A Vila"; Andrew Lawrence em “Uma história de luta”, Val Kilmer em “À Primeira Vista”, entre outros. No Brasil, Edson Celulari em “O mundo não cabe nos meus olhos” (Globo Filmes), Guilherme Lobo em “Hoje quero voltar sozinho” (Lacuna Filmes), Pedro Tergolina de "Malhação" (TV Globo).
Apesar das diferenças, as pessoas com baixa visão em alguns países, como os Estados Unidos, são designadas “legally blind” (legalmente cego). Recentemente, estas pessoas foram inseridas na cadeia produtiva do Audiovisual, especificamente quando se trata de um personagem com cegueira.
É o caso da atriz Aria Mia Loberti, da minissérie “Toda Luz que não podemos ver", que tem a visão reduzida a tons de preto, branco e cinza (acromatopsia); e de Skyler Davenport, de “See For Me” (2021), que percebe luz, sombras e figuras distorcidas com imagens sobrepostas, fenômeno chamado "ghosting"; de Robert Tarango, ator do curta-metragem “Feeling Through”, que devido à Síndrome de Usher desenvolveu retinite pigmentosa com “visão de túnel”; e de Bento Veiga, que enxergava menos de 20% quando gravou a série “Pedaço de Mim” (Netflix).
A baixa visão é um fenômeno complexo e não pode ser confundido com a cegueira. Em pesquisas sobre pessoas cegas em obras de ficção encontramos apenas o caso de Danieli Haloten, atriz da novela Caras & Bocas (2009-2010), que devido a um glaucoma perdeu a visão. Outro exemplo é o ator mirim Mohsen Ramezani, do filme iraniano “A Cor do Paraíso”, cego de nascença.
Nos últimos anos, a ideia de representatividade veio à tona. Ao participarem de filmes, séries e novelas, os atores visibilizam minorias. Manoel Peçanha faz parte de um grupo de artistas cegos dedicados a mudar a cena cultural, mostrando que a inclusão traz benefícios não apenas para quem é incluído, mas também para quem inclui, e que pessoas com deficiência têm muito a contribuir nas investigações no campo das Artes e da Cultura.



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